Existem coisas inerentes à vida, estando tão entranhadas em nossos âmagos que são impossíveis separá-las de cada um de nós. Entre estas está respiração, a água, as partículas de proteínas que se combinam formando cada brilho no olhar e, também, a morte. Ela é o fim do ciclo, a única certeza de quem nasce, a esperança de quem agonizada interminavelmente. Possuidora de várias facetas, a morte pode ser a despedida chorosa de um amor ou, até mesmo, para alguns, o início de um novo ciclo. Megera até a divisão da alma e o espírito, a morte é perda; perder nunca é agradável, principalmente para quem ama. É triste ver sumido um objeto que tem valor sentimental. Mais duro ainda é perder quem se estima para outro, ou, até mesmo, para distância. Porém, a morte é ápice da dor, o ponto máximo da perda. Um objeto pode ser recuperado com uma busca feita com afinco. O amado pode ser reconquistado, o distante, alcançando, mas o que vem a falecer foge do mundo físico, escapa entre os dedos e adentra a imaterialidade. Resta-nos o pesar e a memória. Contudo, a grande vilã não é a morte, mas a lembrança que insiste em fazer-se presente. O amado vira um morto-vivo, quase um zumbi dentro de nossos corações. O que dilacera mais profundamente não é a despedida, mas a memória do que foi vivido e não poderá se repetir. A lembrança de que o toque desejado não será sentido, que o riso não ecoará mais. A voz vem em devaneios, mas só o silêncio se faz presente. Entra-se no mundo sabendo o fim que se aguarda, mas nunca estamos suficientemente preparados para encontrá-lo. Para tão fatigados e incultos seres que somos, a morte é a condenação, o salário ingrato da vida. Contudo, ela só o é se vista com as lentes comuns, com os binóculos da dor. Para quem vê além do palpável e abre os olhos da mente, a morte é mais que a dor devastadora: é a libertação da alma. Ela é o cumprimento de um ciclo pré-estabelecido, o merecido descanso e a coroação da vida. Afinal, só é vivo quem pode morrer.

Incolumo.