Íamos sempre ao mesmo motel, cama redonda, velas ao redor e um chuveiro que mal esquentava. Vidraças, poucas delas não estavam quebradas ou com alguma ranhura, não era o melhor lugar a julgar-se pelo preço. Pois bem. Ela, cabelos castanhos, encaracolados, roupa de couro, incrivelmente provocante, me ligava toda semana, geralmente pelas sextas para nos divertirmos um pouco. Sempre com meu carro, um Opala preto, com bancos de couro e um cheiro que ela dizia ser afrodisíaco, percorríamos alguns quilômetros até o motel. Tudo nela me fascinava, digo, me excitava, cada gesto, cada toque, seus sorrisos, e as coisas que sussurrava a mim. Eu não a tratava bem, afinal, ter algo sério não estava em meus planos, eu apenas queria usa-la e deixar que ela desaparece pela manhã, compromissos nunca foram meu forte e ela sabia disso. E o mais importante: aceitava. Ela sabia como era o nosso relacionamento, apenas sexo, nada de sentimentos, nada de paixonites. No início ela estranhou, mas depois que fizemos o acordo, foi se acostumando. E gostando. Chamamos esse acordo de “amizade colorida”. Enfim, na última sexta feira, ela me ligou por volta das seis e meia, perguntando se iríamos para nossa “aventura semanal”, eu aceitei lógico, e depressa tomei banho, peguei alguns cigarros e bala de menta, ela dizia adorar o meu cheiro, dizia que era diferente, exótico, e que homem não gosta de elogios? Passei na casa dela, ela estava com um batom vermelho, roupa preta e muito cheirosa. Logo que entrou, ela já foi ligando o rádio, colocando na faixa 15, era uma musica que eu adorava. Sem surpresa, pois ela sabia tudo o que me agradava. No entanto, ela estava diferente, inquieta, pensei que era o tesão que o ambiente favorecia, mas não, era algo além, parecia querer contar algo mais, nunca fui de perguntar, e como não me importava com o que ela sentia, não perguntei oque era. Foi uma noite como as outras, boa de fato. A quietude dela me intrigou, mas não perguntei oque era, afinal, eu não tinha nada a ver com a sua vida. O que acontecia fora do quarto não me dizia respeito. Uma semana se passou e então, na sexta, já passavam das 11hrs da noite e ela não havia ligado. Fiquei tenso mas não liguei. A noite parecia infinita sem ela ao meu lado, eram 3hrs quando me vesti e fui até a casa dela. Todas as luzes estavam apagadas, exceto a de seu quarto, não quis gritar e então eu liguei inúmeras vezes e ela não atendeu. Pulei o muro, fui até a janela acesa e entremeio as cortinas eu a vi, na cama, com outro cara. O sentimento de preocupação já estava extinto, e eu não sabia o que estava acontecendo comigo, com muita raiva, entrei no carro e fui para casa. Não dormi aquela noite, apenas me questionava, o porquê de ela não ter me ligado, será que não estava sendo bom o suficiente, oque mais ela queria? Por poucos minutos consegui pregar os olhos. Acordei no sábado com o celular vibrando, era ela, um sms com os dizeres “Que tal hoje?”. O que ela estava achando, porquê estava fazendo isso? As dúvidas me serviram de café da manhã. Respondi que poderia ser, e que eu pegaria ela às 21hrs. Sugeri que fossemos à um lugar diferente para mudar a rotina, e ela novamente concordou com a ideia. Ela me devia explicações, mesmo não sendo da minha conta, pois como eu já disse: o que acontecia fora do quarto não me dizia respeito. Porém eu queria. Desta vez eu queria. Fomos para um motel mais requintado e quando eu perguntava sobre ontem, ela se recusava a responder, então foi me seduzindo, fui rendido e cai em seu jogo. Realmente foi a melhor noite que já passamos juntos, mas de manhã acordei sozinho. Ela havia partido. Logo meu coração apertou. Paguei a conta e corri até o carro. Ela não estava lá. As lagrimas que percorriam meu rosto eram consequência do cheiro dela em minha roupa. Então, quando fui guardar a carteira percebi algo em meu bolso. Uma calcinha com um bilhete amassado que dizia: ” Espero que tenha gostado, preciso ir, não posso viver de sexo, quero amor, e você como disse no começo, queria algo apenas casual. Vou atrás de meus interesses, tomara que encontre outra que lhe satisfaça. Não esquecerei os momentos que passamos, espero que tenha valido pra você, o mesmo que valeu pra mim. Adeus.” Quando terminei de ler, eu já estava com os olhos vermelhos de chorar, só então percebi que o que eu sentia por ela era mais que apenas uma amizade colorida ou sexo casual. Eu a amava e precisava de algo além de seu corpo, eu precisava do sorriso, dos abraços dela . Fui embora, depois disso nunca mais fui o mesmo, um cafajeste que brinca com os sentimentos de uma princesa. Quem sabe um dia ela volte e eu prove a ela que mudei. Quem sabe não.
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“Merda, era pra ser casual”.



