Não sei escrever difícil nem emocionar usando as palavras certas. Tento entender a estranheza de não combinar nada com nada, mas talvez minha alma seja primária demais para isto. Prefiro admirar um jeito de escrever mais objetivo, quem sabe até mais simples. Gosto mais de ler as palavras que parecem soltas, às vezes até quase despropositadas, mas que saem da alma naturalmente, e não que são expelidas em uma combinação de emoções certas, quase perfeitas, mesmo quando o assunto do texto são as incertezas da vida. E confesso me identificar claramente quando você diz que não se encaixa em lugar nenhum, por isso tornou-se um pouco quieto, magoado, quase como se tivesse construído uma espécie de casulo sem abertura. Porque me sinto assim quase o tempo todo, enquanto ouço cochichos da menina do meu Inglês que resolveu implicar comigo aparentemente sem qualquer motivo e quando seguro um livro do Jorge Amado que fala sobre cacau e que insisto em ler, porque me faz flutuar muito de vez em quando, apesar de não ser um dos meus favoritos. Eu me sinto da mesma forma até quando vejo outras pessoas elogiando textos estranhos que falam sobre incertezas, luzes no teto, cheiro de defunto e coisas do tipo, reunidas dentro de uns poucos parágrafos, como se aquilo fosse a coisa mais bonita do mundo e também fizesse todo o sentido do mundo. Ainda mais quando me lembro de que prefiro ler sobre cacau de cor dourada e fazendas amarelas, e homens que se tornaram amarelos da mesma forma. Me sinto um extraterrestre quando escrevo minhas frases longas, meus textos sem parágrafos, porque eu nunca sei onde começar ou terminar um assunto. Quando eu observo que todos já encontraram alguém que um dia amaram, seguraram mãos, beijaram lábios. Talvez eu esteja destinada a ser só, quem sabe assim como você - apesar de que você experimentou, sentiu, amou, beijou e fez qualquer coisa muito mais do que eu. Mas às vezes eu penso que podemos juntar todas essas coisas estranhas que nos definem e simplesmente conseguirmos ver sentido em alguma dessas coisas que parecem quase únicas. Porque eu sei que você também não gosta muito dos textos sobre átomos. Mas talvez odeie também os que não possuem parágrafos definidos e muito menos um assunto certo. Talvez eu esteja escrevendo quase como do jeito que critico, mas não vejo dessa forma. Porque eu ainda consigo entender cada palavra dentro de cada frase. Mas quando alguém diz alguém como “cheiro de flor no teto cheio de pingentes dourados que me fizeram perceber a incerteza de cada um dos momentos”, juro não entender absolutamente nada. E me sinto cada vez mais isolada, em um mundo próprio onde pouca coisa parece fazer sentido. Ainda quero te ouvir falar francês, então talvez eu simplesmente deva continuar insistindo na ideia de que talvez sejamos mais parecidos do que aparentamos. Talvez tão sozinhos, neuróticos, incertos e ansiosos quanto qualquer um, ou talvez muito mais. Espero que alguém tenha em si os mesmos sentimentos de estranhamento e extrema curiosidade que existem em mim, o mesmo gosto por coisas estranhas, a mesma mania de tentar entender o que é para ser sentido, apenas. Que goste de Beatles, roer unhas em momentos de extremo nervosismo e que sinta medo do amanhã. Que talvez tenha o lema estranho de simplesmente seguir em frente e o repita mentalmente todos os dias, enquanto tenta acordar durante um banho morno.Talvez, assim, eu simplesmente não me sinta tão sozinha.

Letícia Loureiro.