Contou os passos. As pernas cambotas e os pés descalços estavam a quarenta passos de casa. Virou-se, e com a vista embaçada pelo sol que há pouco chegara, distinguiu as formas da mulher e dos filhos pequenos que abandonou. Eram três, três Josés Sem Sobrenome e de cabeças cabisbaixas, três Josés que em poucos anos com certeza seguiriam os passos do pai. José Pedro tornou-se lavrador. Metade do dia com a enxada na mão, sendo observado pelo sol torturante do sertão. Casou-se aos 18 anos e aos 25 já tinha cinco filhos. Amava a esposa e cuidava da sua pequena terra com afinco. Fumava no seu velho cachimbo todos os dias antes de dormir. Antes dos 30 todos seus filhos morreram da mesma peste. Três anos depois sua mulher o abandonou e fugiu para o agreste. José Pedro morreu aos 35 anos de velhice. José Marcos tornou-se retirante, nos passos exatos do pai. Só que foi parar na cidade grande e ficou à mercê do mal. Não bastou muito tempo para virar traficante. “Zé da Morte”, como ficou conhecido tinha cinco riscos na sobrancelha, um para cada homem que tirou a vida. Andava com as roupas mais caras e os automóveis do ano. Chegou a apaixonar, mas ela só queria mesmo garantir o pó para cheirar. José Marcos morreu com três tiros no peito, dados de presente pelos mesmos parceiros que tinham lhe jurado respeito. José Carlos virou poeta. Escrevia versinhos para as donzelas e conquistava multidões. Lançou um livro e não vendeu. Escreveu mais um e não rendeu. Escreveu, escreveu, escreveu e enlouqueceu. E então percebeu, que sua poesia só tinha valor quando era de graça. José Carlos morreu de depressão com uma garrafa de rum na mão. Josés, irmãos, nunca encontraram-se depois de adultos, mas permaneceram com as almas unidas no sertão. A semente que nasce no coração dos meninos, junto com o primeiro choro, não abandona o corpo. Morreram no mesmo ano, na mesma dor e na mesma situação: sozinhos. O pai, que anos antes saiu de casa sequer imaginava, que ao sair para garantir o futuro pão, deixou de apoiar a família com o principal: o coração.

Severinar